Quando eu propus tomar conta daqueles filhotes pela primeira vez, ele foi enfático "Não, dona. Não posso. Eu quero eles. E eles ainda tão mamando". Quando expliquei que ia levar a mãezinha também ele deu um pulo: "Aí é que não mesmo, dona!!!!! Ela é a minha vida". Aos poucos fui convencendo. Falei da adoção dos filhotes, falei da castração da mãezinha. A negociação durou 3 dias. Já tinha rodado a região duas vezes tentando encontrá-los. Ele ficou me testando, me pedindo provas de confiança. Eu dei. Quando estava quase vencido ele argumentou: "Mas, dona, a senhora sabe que tem cachorro que quando afasta do dono fica deprimido, para de comer. Ela nunca ficou presa, a senhora mora em apartamento..." Eu, cidadã estabelecida, curso superior, bilíngue, PROTETORA entendia muito de cachorro e garantia que ela não ia passar por nada disso. Ele ainda relutou um pouco, mas com a promessa de que deixaria que a visitasse, que assim que fosse castrada a devolveria e mais vinte reais permitiu que a levasse.
Gostosa foi comigo muito a contragosto, mas dócil. Ao contrário de todos os relatos de agressividade (tinha mordido várias pessoas que passavam pela "casa" dos moradores de rua) estava muito mansa e se recusava sair do meu colo enquanto eu dirigia. Apresentei ela e os filhotes aos meus parceiros de resgate, todos muito animados. Levei pra casa pra dar banho enquanto o cantinho que ela ocuparia na casa da minha vizinha era devidamente preparado. Estranhou muito meus cachorros, estava apavorada, não relaxou um segundo sequer, mas se submetia aos meus cuidados com ela e com os filhotes, se submeteu ao banho. Não conseguia conduzi-la na coleira (obviamente nunca tinha usado uma), tive que carrega-la até o lugar onde os instalamos, um terraço totalmente abrigado, que foi cercado em vários lugares pra que ficasse seguro pros filhotes, mas ela continuava com aquele olhar de desespero. Segundo minha vizinha era um olhar que perguntava "Cadê meu povo?" e a deixamos lá pra dormir.
A noite foi tranquila, ela cuidava dos filhotes, mas não comia, nem bebia água, permanecia dócil e totalmente arredia. Até que pela hora do almoço minha vizinha me ligou. Ela estava em casa quando ouviu um barulhão. Era a Gostosa que tinha pulado do terraço sobre um toldo. Ela foi resgatada com muito cuidado pela janela, levada de volta e estavam tomando os cuidados para tampar todos os vãos para o toldo quando Gostosa simplesmente tentou pular por um outro lado, rumo ao chão. Foi impedida no último segundo. Aí minha vizinha falou comigo sobre suas preocupações, além de todo aquele risco, ela achava que Gostosa estava ensaiando uma fuga, e que durante todas aquelas horas só pensava em uma coisa: voltar pro seu dono.
Procurei a Lídia, companheira de Nossa Mascote, discutimos uma solução e eu abri meu coração: Achava que a Gostosa estava sofrendo muito, estava muito infeliz e correndo risco. Então decidimos que o melhor a fazer seria leva-la de volta para a pessoa que a fazia se sentir segura. E levei. Chegando perto dele ela começou até a aceitar a guia (qualquer coisa pra chegar mais rápido) e eles se encontraram como se tivessem ficado longe um do outro por meses. Na hora ela perdeu aquele ar de preocupação e passou a se comportar como um cachorro de novo. Quando contei o que tinha acontecido ele me olhou sorrindo e disse: "Que bom que a senhora entendeu". Combinamos que assim que os filhotes desmamarem eu volto pra busca-los, encaminhar pra adoção e levar a Gostosa pra castrar. Enquanto isso vou tentar dar toda a assistência possível e estou autorizada a visitar quando quiser (sou praticamente um membro da comunidade agora).
Eu achei que estava resgatando da miséria. Achei que podia salvar a Gostosa de toda a privação e risco que ela tinha passado até então. Mas ela não quer meu conforto, minha segurança. Não quer meu apartamento, meu carro, minha coleira, minha ração nutritiva. Ela é um cachorro, então ela quer mais: quer ficar com aqueles a quem pertence e que pertencem a ela. Sua matilha, seja de que raça for, de que classe social for, nada mais.